Reinterpretando a História | Parte 1 – Erich Von Däniken

Von-Däniken

Num passado distante o ser humano terá sido visitado por extraterrestres. Fomos extremamente influenciados por eles e, eventualmente, até copulámos com eles. Os vestígios dessa interacção estão à nossa volta, por todo o lado. Fique a conhecer a fantástica tese de Erich von Däniken sobre os astronautas da antiguidade e prepare-se para o “choque dos deuses”.

Erich von Däniken pode, para muitos, soar como um louco. Assinalava no entanto André Suarès, pseudónimo de um poeta e crítico francês e um dos quatro pilares da Nouvelle Vague, que “a loucura é o sonho de uma única pessoa [e a] razão é, sem dúvida, a loucura de todos”.

Colocamos questões: que seria da Humanidade se finalmente conseguíssemos chegar ao âmago de Deus, se passássemos a compreender a sua existência, o fundamento dos mitos do divino, se resolvêssemos o paradoxo da sua existência? Inúmeras questões poderiam ser colocadas. Erich von Däniken, escritor suíço, colocou 238 pontos de interrogação no seu best-seller “Chariots of the Gods? – Memories of the Future – Unsolved Mysteries of the Past” (em português chegou-nos com o título: “Eram os Deuses Astronautas?” mas a tradução literal da obra é: “Carruagens dos Deuses? – Memórias do Futuro – Mistérios do Passado por Resolver”). Este é um livro repleto de especulações, assumidas como tal pelo autor, e que a comunidade científica e teológica preferiu encarar como “assunções”/alegações, de alguma forma (talvez propositada ou ingenuamente) descredibilizando-o perante os seus “rebanhos”.

A análise de Däniken sobre o passado do ser humano é densa o suficiente para que não baste uma síntese; passo no entanto, e de qualquer forma, a apresentar uma: os seres humanos terrestres foram “visitados”, num passado longínquo, por seres extraterrestres que influenciaram a sua conduta. Como resultado desta influência surgiram inúmeros avanços científicos, tecnológicos e morais no desenvolvimento da espécie e um emaranhado de mitos e religiões. Poder-se-ia dizer até todas as religiões.

Quando se refere que “fomos visitados” num tempo “longínquo”, temos que considerar que, segundo Däniken, as datações e alcance da ciência estão errados, tendo existido seres humanos muito antes do homo sapiens convencional. Sociedades com um elevadíssimo grau de desenvolvimento e consciência cujas provas da existência ter-se-ão em grande parte perdido devido a catástrofes de diversas ordens (naturais, na maior parte dos casos). As teorias de Däniken vêm colmatar diversas lacunas que ultrapassam os conhecimentos da arqueologia e de outras disciplinas. Assim, os seres que desciam dos céus (o incompreensível transformado em “deuses”, do indo-europeu deiwos : resplandecente, luminoso, o que nos faz lembrar algo) em “máquinas voadoras”, presentes virtualmente em todas as religiões, seriam reminiscências dessas visitas extraterrestres arrastadas até nós em lendas, mitos, orações, imagens, textos, objectos. Transformamos seres altamente tecnológicos em anjos, cujo capacete foi estilizado com o passar do tempo, mantendo-se porém lá, agora sob o formato de auréola. O inexplicável ganha uma nova e surpreendente análise e os arquétipos humanos uma nova compreensão.

Mas então, onde param essas evidências, esses objectos, esses textos, essa tradição? “Neste momento não poderia estar a sentir-me mais céptico”, pensa porventura o leitor. Alto! Van Däniken diz-nos onde encontrá-las, e não poderiam estar mais perto, mais visíveis. As evidências estão por todo o lado, mesmo à nossa volta, só precisamos de abrir os nossos olhos, tornar a nossa mente disponível, libertar a nossa imaginação! Estão presentes nos textos bíblicos, nos textos hindus, nas paredes das cavernas, nas estátuas da Ilha da Páscoa, nas linhas de Nazca, em Puma Punku, no túmulo de Pacal, o Grande. As “evidências” são infindáveis, segundo o autor.

Antes de vos deixar o documentário sobre esta tese de Däniken (documentário do Canal História, dividido em 10 partes), onde se apresentam muitas das respostas que sustentam estas teorias e se confrontam com a ciência “ortodoxa”, permitam-me uma consideração final em formato de discussão, especulação, reflexão e questionamento.

Haverá evidências desta teoria deliberadamente ocultadas, devido à imprevisibilidade da reacção da população mundial, ao risco da desconstrução dos mitos religiosos, de uma catástrofe de consciência, à inevitável necessidade de reformular a cultura e história humanas se tivermos de aceitá-las? De forma semelhante ao que aconteceu noutras alturas da história, e tal como ainda hoje se conservam sítios e documentos secretos, que não têm carácter militar, vedados ao público? O que é real, o que é verdade? Até que ponto podemos não desconfiar de governos, de sociedades secretas, de grandes instituições? Até que ponto o ceticismo é um exercício saudável, e quando começa a ser uma fantasia ou um acto de paranóia?

De que religião seríamos se acreditássemos na tese dos antigos astronautas extraterrestres? Seríamos o quê? Continuaríamos a acreditar em “Deus”, ou nos “Deuses”?

Existe um problema com o ego do ser humano que pode ser a base da crença ou descrença nestas teorias. Um outro autor, Robert Charroux, opina sucinta e abertamente que seria muito mais interessante para o nosso ego sermos descendentes de alienígenas (termos sido visitados e influenciados por eles, termos copulado com eles) do que de “macacos”. Sem dúvida tem uma certa razão, não obstante a maravilha evolucionista de Darwin. Robert Charroux será tema do próximo artigo desta série de artigos.

Fica assim apresentada a tese de Erich von Däniken – para os cépticos, para os curiosos, para os insatisfeitos, para os loucos. E se tudo for verdade? Quem estará pronto para o “choque dos deuses”, quando um dia eles regressarem?

(Artigo original na obvious, aqui)

Reinterpretando a História | Parte 2 – Robert Charroux

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Vida para além da morte, universos paralelos, Deus, segredos enterrados, continentes perdidos, virgens negras. Para além de partilhar com Erich von Däniken a teoria dos antepassados astronautas, Robert Charroux é o mestre da pseudo-ciência. Mergulhe nos mundos esquecidos pela História e num “si próprio” muito maior que os limites dérmicos do seu corpo.

A palavra heresia provem do latim haeresis e significa “divergência em ponto de fé ou de doutrina religiosa” ou, por extensão, “blasfémia”, ou ainda, figurativamente, “opinião ou doutrina referente às ideias recebidas”. Robert Charroux (RC) considera-se um herético. Afirma que “o caminho para a verdade se faz às apalpadelas, à custa de erros sucessivos e de descobertas positivas”. Diz ainda que “no labirinto em que se perde, o investigador nunca alcança o âmago”. Critica com humildade algumas (poucas) falsas asserções encontradas nos seus livros que foram posteriormente desmistificadas. Mas aponta uma maior “falha” que, embora alheia à sua vontade, está directamente relacionada com ele: por toda a França e em outros países surgiram, espontaneamente, clubes Robert Charroux – grupos de estudantes, jovens amantes do insólito, do supranormal e do saber não conformista.

O problema reside, essencialmente, no questionamento destes jovens em liceus e universidades sobre a validade e veracidade do ensino clássico com base nos seus livros (livros dos quais ele é o autor mas que envolvem o contributo de diversos historiadores, arqueólogos, escritores, correspondentes e amigos, e a sua fiel colaboradora – Yvette Charroux). Ora, Robert Charroux deplora esta “heresia” contra o ensino clássico, fazendo entender que embora algumas das suas teses ofereçam garantias mais comprováveis, elas não passam, geralmente e quanto ao resto, de “exercícios, de jogos intelectuais, susceptíveis de aperfeiçoamento, destinados a estimularem o cérebro e, talvez, a serem algum dia confirmados”. Sendo assim, este trabalho de “aperfeiçoamento” pressupõe o conhecimento dos tratados clássicos.

Mas qual é a relevância disto? Bom, Robert Charroux elaborou umas teses, umas teorias, que defrontam “tête-à-tête” (a níveis semelhantes) a ciência clássica nos campos da Pré-história, da História e da Religião, entre outros, ou seja, na forma como concebemos o mundo e a nossa existência. É deveras interessante e totalmente conspirador. Se for o mundo de Charroux uma verdade, então vivemos nós, há já muito tempo, numa gigantesca conspiração. E se por vezes a conspiração é apenas um pesadelo para a realidade banalizada, é, certamente e muitas vezes, o oposto. Ou seja, como podemos delimitar a distância entre a realidade e a conspiração? A realidade é por vezes um produto de conspiração e a conspiração uma realidade (pense-se – apenas como exemplo, pois teríamos inúmeras formas de mostrar isto – nas reuniões do Clube Bilderberg ou nos Iluminatti ou ainda na Maçonaria e nas façanhas edificadoras da Nova Ordem Mundial).

Charroux morreu em 1978 com 69 anos. Trabalhou para os correios franceses até se tornar escritor de ficção científica, tendo então publicado seis obras de não-ficção baseadas em dezenas de anos de investigação em diversas áreas relacionadas com a arqueologia, a exegese, a religião, o misticismo, entre outras, a maior parte na última década da sua vida. São estas as obras relevantes para nós, para este artigo. Não podemos, no entanto, deixar passar sem assinalar, e a título de curiosidade, as tiras de banda desenhada escritas para o Mon Journal, nos finais dos anos 40, que tinham como protagonista um super-herói com poderes atómicos – o Atomas!

Charroux é o reconhecido pioneiro da teoria dos antigos astronautas, mas é importante denotar a reciprocidade de influência entre ele e Erich von Däniken, havendo, inclusive, acusação de plágio por parte da editora de Charroux, o que obrigou a editora de Däniken a colocar os livros deste na bibliografia das suas obras. Note-se ainda que ambos terão tido influência das obras “The Morning of Magicians” (“O amanhecer dos Mágicos”), de Lewis Pauwels e Jacques Bergier, e dos livros do profícuo autor britânico Raymond Drake, todos no início da década de 60. (A razão pela qual Robert Charroux não abre as hostes desta série de artigos sobre a reinterpretação histórica em prol de Däniken prende-se com o facto de que o primeiro transcende de alguma forma Däniken no campo de análise, fazendo transbordar esta para um tempo mais Presente, se considerarmos uma perspectiva linear do Tempo).

É impossível dissecar aqui as teses de Charroux. Deixo-vos, então, alguns títulos de duas das suas obras (deveras interessantes, por sinal) para que possa o leitor ter uma noção mais precisa da temática abrangida por este senhor e, eventualmente, mergulhar por si no fantástico desconhecido (note-se que estes títulos estão descontextualizados do seu conteúdo, não merecendo, por isso, julgamentos apriorísticos):

O milagre da areia de ouro; o cérebro extraterrestre; A coisa estranha provoca loucura; O mar está esquisito; O país onde o tempo deixa de correr; Os nossos antepassados não eram macacos; O Homem é um ser extraterrestre; Menires na lua; Um falo em metal desconhecido; O ocidente foi sabotado; Conheciam a charrua mas não os bois; O gerador de plasma dos faraós; A alma do Universo; O império invisível dos R+C; A Atlântida vai ressurgir; Os fantasmas de Hiroxima; A violação legítima; Deus é excomungado; A Bíblia é um romance; O sapo iniciado; Deus não é um capataz; O amor é um conceito satânico; As raparigas serão belas em 1986; Os homens são mais sábio que Deus; Jesus recusava-se a ser o Salvador; Um «hippie» chamado Jesus; Os Apóstolos: drogados; A mulher, criatura do Diabo; Jesus não estava morto; Receitas para viver muito tempo; A missa na Lua; A esquerda é obscena; Extraterrestres operam uma egípcia; Os super-homens voadores e o mistério dos golfinhos; As palavras que é proibido pronunciar; Os hebreus são arianos puros; Moisés não escreveu a «Génese»; A História está deturpada; Há 5000 anos os deuses voavam; Uma mulher para repovoar o mundo; A evolução humana do dilúvio até à nossa época; Anti-racismo cósmico; Os mestiços modificarão a face do mundo; Extraterrestres para mulheres negras; Adão e Eva eram negros; Deus é branco; A verdade antiga é inacreditável; Proibido invocar Deus; A gruta de Rosenkreutz; Os quatro segredos R+C; O segredo das tochas eternas; Os locais mágicos onde apetece viver; Equilibrar o + e o -; A pirâmide subterrânea; Alguém no invisível; Religião = Feitiçaria; Magia negra; A maldição das focas; O deus branco que insufla; As drogas de iniciação; Os poderes fantásticos de Maria Sabina; A planta extraterrestre; O imenso medo dos americanos; Deus: dois braços, duas pernas…; O rei Crono da Atlântida; Revelações proibidas; Os Maias inventaram o futebol; Keely aguenta dez toneladas num só braço; A levitação dos santos; A vida é possível em Vénus; O mistério dos homenzinhos verdes.

Como se pode verificar, a temática abordada por Charroux é bastante ampla. Há, no entanto, um tema que sobressai nos seus livros com maior veemência: a Atlântida. Este continente perdido é um tema já deveras debatido mas merece ainda a nossa (e a dos especialistas) atenção. Recentemente, rumores indicaram a descoberta de parte deste continente através do mapeamento planetário feito pela Google. Após um enorme alarido, a “descoberta” foi (parcial e não muito convincentemente) desmentida.

Charroux destrói de uma forma fabulosa a crença religiosa na ciência actual, substituindo-a por um admirável Passado novo, tornando, sem a menor dúvida, o nosso mundo e a nossa existência em algo muito mais fascinante (!)

O próximo artigo desta série será sobre um especialista em xamanismo, o homem do “Pão dos Deuses”, Terence McKenna, que partilha com Charroux e Däniken uma estupenda visão do passado da Humanidade.

Agora, quase findo este artigo e de forma a inspirar o leitor ao exercício e à grande loucura de repensar, ainda que momentaneamente, as suas profundas convicções acerca do mundo e da vida, deixo-o com uma frase de Sanconíaton de Béryte, autor de “A História Fenícia”, escrita há cerca de quatro mil anos atrás, a quem Charroux dedica “O Livro dos Senhores do Mundo” por ser este “o pioneiro das verdades primeiras”: «Os nossos ouvidos, habituados desde os primeiros anos a ouvir as suas histórias falsas, e os nossos espíritos, imbuídos desses preconceitos desde há séculos, conservam como um depósito precioso essas suposições fabulosas… de tal forma que fazem aparecer a verdade como uma extravagância e dão a lendas adulteradas a aparência da verdade».

(Artigo original na obvious, aqui)

Reinterpretando a História | Parte 3 – Terence Mckenna

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Terence McKenna não procura nos céus a origem dos deuses, mas encontra na terra a origem do conhecimento. O escritor Tom Robbins diz que “desconhecer as suas descobertas etnobotânicas é desconhecer a pulsão central da consciência humana – a qual não é vegetar com as moscas no esterco, e sim voar com os deuses”. Fiquem a conhecer de perto este fantástico e controverso académico, este surfista da mente, este “mago alucinado”.

Se von Daniken e Charroux viam numa intervenção alienígena a explicação da evolução da espécie humana, Terence McKenna acrescenta a esta série de teorias reinterpretativas da História da Humanidade a tese de que as drogas – mais precisamente, o composto psicoactivo psilocibina – tiveram um papel fundamental nesse processo.

Explorando uma via diferente das conhecidas considerações científicas sobre este assunto, McKenna acredita que a linguagem, a consciência e o caminho evolutivo que nos separou das restantes espécies animais se deveu à conjuntura e acasos migratórios que nos proporcionaram um encontro com diversos tipos de flora alucinogénica. As teses de McKenna estão explicadas e pormenorizadas com exemplos na sua bibliografia, em que se inclui os conhecidos “The Invisible Landscape” (1975), “The Archaic Revival” (1992), “Food Of The Gods” (1992) e “True Hallucinations” (1993).

Assim, para McKenna existiu um momento preciso, ou um período de tempo exacto, em que o ser humano, ainda a dar os primeiros passos na longa caminhada da evolução, se encontrou com a chave da Cognição e abriu as portas da Razão, elementos que, para além das condicionantes que já sabemos terem influenciado profundamente o carácter evolutivo da espécie, despoletaram em nós aquilo que, de uma forma lata, um dia chamámos de Consciência.

O ser humano tem uma relação profundamente simbiótica com diversos tipos de drogas naturais que foram sendo absorvidas ao longo das várias fases da nossa evolução. Estas substâncias moldaram-nos cultural e intelectualmente. Podemos destacar, por exemplo: o álcool, a cannabis, o açúcar, o café, o chá e o cacau, o ópio e o tabaco, a heroína, a cocaína. E os psicadélicos: o ayahuasca, a mescalina, os cogumelos, o LSD.

Esta flora tem funcionado como catalisador da experiência mística, como um terço cristão, como a dança dos sufis, como a auto-flagelação. A diferença encontra-se na eficácia, no prazer, no facto de ser mais “humano”, mas não em demasia.

É verdade que Terence McKenna se afasta (ma non troppo) da linha de pensamento de Däniken e Charroux. Para McKenna, os “deuses” estão efectivamente presentes, sim, numa dimensão paralela, num estado de consciência superior, mas agora acessíveis – através da receita mágica de acesso aos seus edifícios, aos seus universos. Esta receita consiste num bolo psicadélico, na prova dos “frutos proibidos” das pradarias, no “uso” de plantas, de cogumelos alucinogénicos (“o verdadeiro elo perdido”). Terence McKenna chamou-lhe “a árvore primordial do conhecimento”, o “pão dos deuses”.

A compreender melhor: esta dimensão a que se refere McKenna é uma dimensão real, “visitável”, teórica e praticamente igual para o estudante na China como para o xamã na Amazónia. Implica um ritual, sim, mas os “habitantes” e o ambiente destas dimensões são sempre os mesmos. Este espaço virtual (real, porém) pode ser uma construção humana, um meta-habitat edificado ao longo de milénios através de experimentação psicadélica, como pode porventura ser uma dimensão “demasiado” real e indicar a existência de campos do espectro sensorial humano alheios aos sentidos comuns, perpetuados por uma elite alucinada, perspicaz porém, meta-aventureira, (psiconauta) e hiper-consciente.

McKenna formou-se em Ecologia, Conservação de Recursos e Xamanismo pela Universidade da Califónia em Berkeley, EUA. Após a conclusão do curso viajou pelos trópicos asiáticos e pela América Central, estudando as bases ontológicas do xamanismo e da etno-farmacologia da transformação espiritual.

Agora, reparem: McKenna é conhecido essencialmente como um filósofo moderno, autor americano, orador, metafísico, historiador de arte, etnobotânico e, como já foi referido, filósofo e psiconauta. Descrevia-se a ele próprio como anarquista, anti-materialista, ambientalista, feminista, platónico e céptico. Ficou conhecido pelos seus estudos e conhecimentos em psicadelismo, metafísica, enteogénicos, xamanismo, misticismo, hermetismo, neoplatonismo, biologia, geologia, física, fenomenologia e pela sua Teoria da Novidade.

A mudança de milénio coincidiu com a morte de Terence McKenna. Sucessivos ataques de cefaleias levaram-no a confessar que estava a passar pela mais poderosa experiência psicadélica que alguma vez havia experimentado e, após vários meses de tratamentos, morreu de cancro cerebral. Com dois filhos e a viver no Havai, McKenna morreu no ano de 2000, com 54 anos, após uma longa tour de palestras.

McKenna explorou o nosso passado do ponto de vista do misticismo e revivalismo arcaico, de forma a descobrir os elementos fundamentais e primários e o funcionamento cósmico tanto do universo como do ser humano e de ambos como entes interdependentes. A intenção, o objectivo, é, fundamentalmente, reaprender a religação (origem do termo “religião”).

Não é um retrocesso, um retorno ao Passado – é hiper-evolução. É reencontrar o trilho perdido da nossa caminhada “natural”, reconectar o ser humano a si próprio e à Natureza, refeminizar o mundo, abraçar Gaia, e apreender a forma de nos recolocarmos no nosso lugar, de redescobrirmos a nossa matriz, de nos retirar deste mundo plastificado e suicida e de participar com plenitude na magia e no êxtase da existência – isto faz-se , para o autor, também através das drogas psicadélicas, como parte da longa marcha em direcção à evolução humana.

Charroux diz-nos que o que realmente importa parece manter-se secreto. Desmistifica uma História que ele crê deturpada para servir propósitos de controlo. O media que nos conectava aos nossos visitantes estrangeiros e a forma de ver (e tocar) todas as outras 28 teclas do piano tem estado sempre à nossa volta. Mas foi-nos proibida a sua compreensão e a sua experimentação (McKenna). E se os nossos amigos extraterrestres, extradimensionais, nos tivessem deixado a fórmula de comunicação, de união, o convite, a chave mágica, plantada por aí? Afinal crescem, em verdade, como cogumelos. São as drogas (não as legais, pois essas são instrumentos de controlo, mas as naturais, aquelas que tomamos há já milénios) a chave da compreensão de um universo mais amplo? São elas a forma de navegar em universos psíquicos que nos transportam para o “palácio da sabedoria”, através das “portas da percepção”?

Espero que tenham gostado da viagem.

(Artigo original na obvious, aqui)

A Mulher Preta

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I – A Mulher Preta

Foi, infiel, ou como quer que o amor lhe chame

No contraste do encarnado velho e da obscuridade do seu pensamento

Infligir-lhe pequena loucura.

No sustento do seu sangue olha triste um livro

Nua, e perpetuamente presa.

De costas, invoca o mais triste chorar

Do pensamento encarnado

E do grito de dor

Do seu sonho acabado.

Dança para sempre a mulher preta

Em religiosidade mórbida

E brinca com palavras que não são as dela.

Imagens oníricas do tempo.

Árvore que salva

Pelo inspirar eterno

Desta morte inerente a um pensamento.

Alma sem nada que vestir

Que nem nunca conheceu roupa.

Pureza no seu olhar

E no peso da tua expressão,

Fugidia.

No buraco aberto da imaginação escavou um túnel em ar cromado de ténue azul

E no banco da memória encontrou-se a si própria, sentada,

Perguntando repetidamente porque estava sozinha.

A resposta, no cinzeiro do turbilhão dos pensamentos:

‘arranca os olhos e vê-te para além do que és’ – diz a criança nela aninhada,

A pairar fatuamente no seu próprio ar.

 

II – O Negativo do Sol

Espaça-se o tempo, enquanto se veste de sonhos por lavar

Cedo, espreme suavemente os seios, e dá um gole de seu leite

Para assim regressar a si própria.

Alimenta o mundo com uma lágrima que sacia egos.

Dança, hipnotizada, ao som de rubis reluzentes

E numa volta provoca um tornado que salva o mundo.

Recria, numa brincadeira com deus, todos os detalhes,

Mas como não sabe o quão bem, sente-se infeliz.

Agita-se, e quando se coça, as suas escamas fertilizam o solo

Donde brotam os mais belos rebentos de jasmim.

Deus habita o seu couro cabeludo,

E sua caspa, como pólen, inebria mentes e acorda os mortos.

Não se adivinha louca,

A mulher preta,

Constantemente prenha de aflições

E esquecida para sempre pela vida.

(Dança para nós, invisível no seio da multidão)

A origem da sua parca vida por ela foi germinada,

Pois a criação do homem está na palma dos seus pés,

Gastos de migrações.

Pelas mãos inspira e expira o cosmos,

Com essas mesmas mãos com que lava a roupa suja

E os seus sonhos

E a margem do rio polvilha areia nos seus pés

E a pedra mágica roça com a língua na tona

E o brilho circular da ondulação

Arrasta sedimentos divinos de húmus celestial

Nos quais ela se dissolve.

E se aninha de novo.

 

III – Tépida Escuridão

A Mulher Preta foi exportada

Vendida violada,

Um pé na lama e nem um graveto, movediço,

Sem dom a acalmava.

Foi a pé, pé ante pé, sempre descalça.

Alçaram-lhe os pés

E anilhada foi declarada.

Voou longa lagoa azul cristalizada e

Acariciou (com uma nostalgia perdida no tempo)

Rios de alcatrão.

Arrancou um Dó do roncar do planeta a navegar no cosmos e

A mulher preta, empalidecida, sozinha voou

Nas serpentes de pedra da miséria

Líquida e estupefacta riu-se na feira de aberrações envidraçada

Dos estéticos palhaços pintados com o sangue de exóticos animais.

O amor chamou-lhe mas ela deixou de ir,

Nua e ensanguentada, a criança aninhada,

Nas suas vísceras para sempre dançou.

(escorreu-lhe pelo canto da boca uma palavra, e uma dor agonizante no rim

provocou um tornado, aspirou (e transformou em pó) para sempre o mundo,

e o vaso onde plantou apenas coisas boas começa a dar sinais de angiospermia.)

 

IV – A Morte

A semente desnudada

Deu os resultados pretendidos…

A Mulher Preta expele agora felicidade.

Voa ténue e fofo o pólen de mil cores

E ninhos de pássaro aparecem subitamente na sua garganta.

Em breve darão à luz as sementes que, polvilhadas com o sémen de deus,

Farão eclodir movimentos involuntários nos rostos do mundo e ninhos, mais ninhos.

(dum espasmo quebra todas as barreiras

E consuma todas as revoluções)

Numa calma eufórica, espreme do pé uma última fúria

Que rebenta com todas as correntes,

Elevando-se assim da criança nela aninhada.

Descodifica todo o morse da vida,

Respira, pela primeira vez, todo o oxigénio do mundo,

Mesmo esse que está dentro de ti,

Livrando-nos de todos os vícios

E apaziguando todas as vontades.

Volta, assim, para casa.

José Saramago – Memorial de um Génio

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José Saramago morreu no dia 18 de Junho de 2010. Nobel da literatura, génio das palavras, mestre do texto. Controverso, comunista, ateu. Um tributo à pessoa que marcou a história da literatura universal, que faz periclitar as bases da História e do senso comum, e que deu um novo sentido ao mundo e ao ser humano. Uma história de vida e uma obra imperdível, uma “viagem de elefante”.

José Saramago morreu no dia 18 de Junho de 2010. Não sabemos se teve ou não um encontro com Deus, no céu, no inferno, ou no “desqualificado purgatório”, mas podemos ter a certeza que ambos precisavam de ajustar contas. Ateu convicto, José Saramago tem Deus como um dos temas-fetiche das suas obras. Era com Ele que gostava de conversar, era sobre as suas representações terrestres que dissertava com uma brilhante clareza interpretativa, muitas vezes recheada de causticidade, atraindo polémicas e excomunhões de muitos lados.

Saramago encontra-se agora, porventura, num, seu e claro, vazio inconsciente. Um vazio que se preenche, como acontece sempre com alguém literariamente famoso que perece, num crescendo de interesse limitado no tempo, como também sempre acontece com o interesse súbito pela obra do perecido que renasce no consciente colectivo, com as vontades de evasão do presente e da realidade quotidiana dos cultos e incautos mortais, com a leitura das suas obras. Agora encontra-se na escuridão da sua própria ausência, presente aos latejantes de vida na significância com que estruturou as letras, as mesmas peças com que jogamos o jogo da vida em verbo, sem, no entanto e inevitavelmente, a perícia da exposição do capital intelectual e a arte da construção literária saramaguiana, ou, talvez, o encontremos um dia a conversar com Blimunda Sete-Luas, num metafísico “Memorial do Convento” (1982), esta agora hiperciente da azáfama e dos interstícios da vida, e d’ “As Intermitências da Morte” (2005).

Apenas vagamente, conhecemos nós Saramago nos seus tempos de juventude. Sobeja um hiato temporal entre a primeira publicação do jovem escritor, bem depois das noites de sono partilhadas na cama com os avós Jerónimo e Josefa e os porcos, numa Azinhaga Ribatejana dos tempos da meia sardinha onde as pessoas eram constantemente “atiradas ao chão” por forças opressoras e esmagadoras, essa Azinhaga que o petrificou em estátua num banco de jardim, e a profícua e epopeica revolução literária, 30 anos depois.

Saramago não foi um académico e não ganhou prémios literários aquando da sua juventude. Saramago não foi sequer unanimemente querido, consensual, ou, como por vezes acontece nas esferas culturais e espectaculares, adulado. Terá inclusive dividido a população portuguesa, este anti-herói para parte do senso comum e para a grande parte da mediocridade política. Saramago não competiu o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, porque não o deixaram. Os cordéis da manipulação literária e os senhores das marionetas políticas e religiosas não o permitiram. A humanização do mito de Jesus Cristo, n’ “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), foi a desculpa para tentar olvidar o homem que pôs Portugal (no mapa) e Espanha, o iberismo saramaguiano, a navegar pelo oceano, na sua “Jangada de Pedra” (1986). Países à deriva na unificação atracada de uma Europa cada vez mais distante e, paradoxalmente, maior. Portugal é um estado laico. A separação dos poderes entre a igreja e o estado estão, há muito, constitucionalmente definidos e aprovados. A dissecação de Jesus Cristo, o desdobramento do mito, do homem-deus em homem-(demasiado)humano, colocou no parlamento uma inflamada discussão sobre se seria este Saramago um homem suficientemente português para representar uma nação tão histórica e histericamente conectada a um deus (pátria, família) que este homem, português de nascença é certo, não acreditava. Talvez não suficientemente português mas suficientemente reconhecido mundialmente, Saramago arrecadou o Nobel da Literatura em 1998 e, justiça divina, o Prémio Camões em 1995. Não se refugiou no país que não aceitava as suas ideias, vá, os seus romances misto fusional de uma realidade tépida e uma ficção transpirada, como se se tapassem as lacunas de realidades incertas com o vómito de tempos deploráveis. Não se refugiou sequer, nem o degredo psicológico parece ser um motivo. Não hoje. Saramago escolheu na sua ibéria o recanto de memória mais distante dos homens que o rejeitaram, perto daqueles que são “as maiores vítimas do capitalismo ocidental”. O destino foi Lanzarote, a poucos quilómetros da costa africana. Ilha perdida das Canárias, Espanha, inóspita. Um acaso desidratado, um pedaço de terra negra onde escolheu viver e amar. Temos a certeza que se a ibéria se desprendesse do resto da Europa, Lanzarote ficaria no sítio, a ver passar ao largo a sua assustadoraalucinação tectónica. Em Lanzarote nasceu uma epidemia contagiosa que colapsa a sociedade, uma cegueira espontânea que viria a revelar o que de mais extremo veste o ser humano – da animalidade à racionalidade, da violação ao amor. Ainda assim, esta penosa experiência para o autor e para o leitor, o “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), é uma “longa tortura” que mostra que nós, humanos, “não somos bons”. Dos mesmos olhos que viveram a visão da escuridão mundial vieram as lágrimas, durante a apresentação da adaptação deste ensaio ao cinema, ao lado do director brasileiro Fernando Meirelles.

De Saramago podemo-nos essencialmente deleitar com cerca de 30 anos de obra, de uma literatura “anti-gramatical”, ou seja, que reduz grande parte da portugalidade, a sua enorme língua e as suas orgulhosas regras gramaticais, a um estilo novo e único, um estilo que transforma o hermético das convenções, da pontuação e dos parágrafos, do senso do tamanho frásico, numa literatura encadeada, numa leitura do pensamento, numa leitura que se lê sem se conseguir parar. Pelo menos até Saramago querer. Desmistifica o mergulho profundo e embrenhado no romance, alertando e antecipando os pensamentos e as dúvidas do leitor, tornando a relação entre ambos mais verdadeira, porém mais dominada. Incorrecta ou elitista, dizem alguns, eis uma forma de desconstruir centenas de anos de convenções e acordos em algumas dezenas de anos de romances, poemas e peças teatrais, contos e crónicas, viagens, diários e memórias e “A Maior Flor do Mundo” (2001), o único título infantil. É a língua algo em constante mutação, não é assim, querido acordo ortográfico? Deve então ser a escrita de Saramago um corte, um raio, uma faísca de mudança nessa transformação, nessa mutação.

Saramago foi, é e será tão importante para a literatura portuguesa e mundial como o foram Fernando Pessoa ou Carlos Drummond de Andrade. Eis o homem que quando fala não mede o comprimento do sentido das palavras, em oposição à medida do comprimento interpretativo da sua escrita. Um homem que “quando se enfurece é simpático”, um autoproclamado “pessimista pela razão, optimista pela vontade”. Saramago diz o que pensa e o pensamento dele ecoa em palavras não polidas, despidas, em construções sólidas da sua verdade. Sem medo. Assume-se como comunista, ponto. Não ortodoxo, ponto. A tudo isto se chama, supomos, liberdade de expressão. Liberdade essa que por entre tantos anos de luta parece ainda periclitar nas certezas de alguns eruditos.

O funeral reuniu muitos simpatizantes, amigos, amantes da sua literatura, curiosos e a natural nata politizada. Notou-se, no entanto, e de alguma forma despreocupadamente (pela irrelevância no caso), a ausência daquele que na altura em que um evangelho incendiou um parlamento era o primeiro-ministro, o actual Presidente da República Portuguesa, o Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva. Politicamente correcto, como sempre e como tem que ser, não se coibiu, com uma expressão entediada e simuladamente entristecida, de ler um comunicado escrito por um seu qualquer assessor. Um escrito banal daquele a quem Saramago chamou “o mestre da banalidade”. Acredito que sentisse uma perda para o país, mas não muito.

O funeral reuniu muitos simpatizantes, amigos, amantes da sua literatura, curiosos e a natural nata politizada. Notou-se, no entanto, e de alguma forma despreocupadamente (pela irrelevância no caso), a ausência daquele que na altura em que um evangelho incendiou um parlamento era o primeiro-ministro, o actual Presidente da República Portuguesa, o Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva. Politicamente correcto, como sempre e como tem que ser, não se coibiu, com uma expressão entediada e simuladamente entristecida, de ler um comunicado escrito por um seu qualquer assessor. Um escrito banal daquele a quem Saramago chamou “o mestre da banalidade”. Acredito que sentisse uma perda para o país, mas não muito.

(Artigo original na obvious, aqui)

Projeto Vénus – Redesenhando o Futuro

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O Projecto Vénus fascina à primeira vista. Mas é quando olhamos mais de perto, com mais atenção, que nos apercebemos da sua real importância. O mundo não está muito bem de saúde, e os seus habitantes também não. Urge encontrar soluções. Apresento-vos uma sociedade altamente tecnológica, onde o ser humano usufrui de uma vida repleta de abundância e significado. Apresento-vos o Projecto Vénus, aqui na Terra.

Vénus, crepúsculo de uma tarde extremamente solarenga. Jacque Fresco coloca, com a meticulosidade reflectida na precisão com que gesticula e maneja incrivelmente detalhadas miniaturas, o último andar de um edifício-maquete de mais uma visão arquitectónica futurista. Roxanne, sua companheira e ajudante, alimenta um entusiástico debate com um grupo de visitantes sobre um tempo que há-de vir, com bolinhos de laranja acabados de fazer e sumo de ananás fresco. Situado a cerca de 40 milhões de quilómetros da Terra, o planeta Vénus é um corpo celeste que brilha continuamente durante o dia e durante a noite no céu terrestre. É uma luz continuamente presente, algo que nos faz lembrar onde estamos e quem somos.

À distância dos mesmos 40 milhões de quilómetros de Vénus encontra-se Vénus, na Flórida, Estados Unidos da América. É lá que se concentram os indícios de uma civilização que aguarda por acontecer. É lá que se reestrutura o nosso Futuro, que se criam as bases de uma nova humanidade. Bem-vindos à base de operações do Projeto Vénus.

Crime, poluição, prisão, falência, corrupção. Jacque Fesco apresenta-nos uma aliciante hipótese para solucionar estes problemas. Parece uma utopia. E é, mas as utopias do Passado são a realidade do Presente, e Jacque propõe, simplesmente, reestruturar toda a sociedade, e o quanto antes. Parece um bom plano.

O Projeto Vénus é um projeto denso, com os pés bem assentes na terra, que, envolvendo uma diversificada panóplia de paradigmas, cimenta muito bem a teoria e a prática de uma nova, e certamente admirável, futura sociedade. Vamos, com a minúcia possível, detalhar este planeta do Futuro.

O conceito-base aparenta uma certa simplicidade: de acordo com Jacque Fresco, a economia baseada no lucro (o actual sistema monetário) gera escassez, pobreza, crime, corrupção e guerra. Impede também o saudável desenvolvimento da tecnologia, que deveria ser utilizada para benefício da sociedade e não em prol da poluição, da construção de armas, da massificação do consumo, da alienação, entre outros. Ou seja, se a tecnologia fosse utilizada fora do âmbito do lucro, sobejaria espaço para uma maior abundância e distribuição de recursos, o que, consequentemente, se repercutiria numa drástica diminuição da corrupção, da ganância e egoísmo que caracterizam as sociedades desenvolvidas contemporâneas. Tudo isto em prol de uma atitude de cooperação.

Fresco acredita que é possível construir uma sociedade assim, em que as pessoas vivam vidas “mais longas, com mais saúde e com mais significado”. E como se consegue tal prodígio? Fácil: substitui-se a economia baseada no dinheiro por uma economia baseada nos recursos. Esta visão ressalta, finalmente, da observação de que os processos resultantes do sistema monetário, como o trabalho e a competição, corrompem a sociedade e afastam as pessoas do seu verdadeiro potencial. É nesta sociedade de cooperação e altamente tecnológica que o Projeto Vénus vê o escape da sociedade ao actual panorama eco-sociológico.

Mas afinal quem é este senhor que ousa pôr em causa toda a estrutura social, e alega ter encontrado uma forma de criar uma sociedade nova, uma sociedade melhor? Designer industrial, engenheiro social, autor, futurista e inventor: Jacque Fresco.

Fresco tem trabalhado num amplo leque de temas, desde o campo da biomédica até à área dos sistemas sociais integrados. Agora dedica-se, a par com Roxanne, à construção de protótipos, experimentando constantemente novos materiais. Ambos vivem actualmente no centro de pesquisa do projeto, em Vénus, e inclusive habitam um destes protótipos.

Quando era criança, uma forma provocou em Jacque uma visão que desde então é a base das suas inúmeras maquetes de cidades, meios de transporte, meios de construção, veículos espaciais e, inclusive, modelos sociais. Essa forma é… a engrenagem.

E há mais: há o Metal-Memória. Este material pode ser totalmente deformado, retorcido de inúmeras formas e, depois de totalmente distorcido, quando sujeito a uma certa temperatura, volta exactamente à sua forma original. Assim, estruturas feitas de Metal-Memória podem ser comprimidas em pequenos cubos para serem transportados, normalmente para cidades construídas no mar, e aí expandir para a estrutura previamente construída. Quase instantaneamente veríamos um prédio emergir a partir de um pequeno cubo deste peculiar material, quase que por magia, sem truques.

O Projecto Vénus está, em parte, associado ao movimento Zeitgeist (do alemão “espírito do tempo”), cuja obra culminou na edição de dois filmes, ambos reflectindo a visão de Peter Joseph sobre o clima intelectual e cultural da nossa época. Ambos estão disponíveis gratuitamente na internet, legendados em português. O primeiro chama-se Zeitgeist: The Movie (“Zeitgeist: O Filme”) e o segundo Zeitgeist: Addendum. Neste segundo filme Peter Joseph introduz o Projecto Vénus. De salientar que ambos ganharam, nos respectivos anos de lançamento, a saber: 2007 e 2008, os prémios de melhor filme no Artivist Film Festival, em Hollywood.

Muito fica por dizer sobre o Projeto Vénus. Que este artigo seja a prancha para uma pesquisa individual mais profunda e, quem sabe, para um melhor entendimento do mundo e das soluções que nos apresentam, de forma a garantirmos um futuro muito mais solarengo.

A História verifica que nada é impossível de ser concretizado. As ideias futuristas de hoje poderão ser as realidades de amanhã. Atribui-se a George Bernard Shaw esta conhecidíssima frase que pode sintetizar a utopia de Jacque Fresco: “Alguns homens vêem as coisas como são e perguntam: “Porquê?” Eu sonho com as coisas que nunca existiram e pergunto: Porque não?”. Agora é a vossa vez.

(Artigo original na obvious, aqui)

Andy Riley: Do Lado “Coelhico” do Humor

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Depende do nosso capital humorístico gostarmos mais ou menos de Andy Riley. Uma inclinação para o humor enegrecido é factor essencial para esboçar um sorriso (ainda que mental), um riso contido mas verdadeiro (daqueles rápidos mas sinceros) ou uma gargalhada aberta. De qualquer forma, é inegável a criatividade de Andy e, principalmente, a capacidade de fazer humor com temas aparentemente paradoxais. É ou não a vida uma tragicomédia?

“Coelhos há muitos”, dizem. Lembrando: temos o antropomórfico Bugs Bunny, o possivelmente lunático Coelho da Páscoa, o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas (também antropomórfico), o retro Topo Gigio (ops… este não é um coelho, é um rato!), o “Bing Bing Bing! Coelho Ricochete” (antropomórfico), o pré-Mickey Coelho Osvaldo (antropomórfico) e os biofóbicos coelhinhos suicidas de Andy Riley (extremamente antropomórficos, por sinal). Conclusão: a maior parte dos coelhos são antropomórficos, assim como o serão, por dedução e como iremos ver, a maior parte dos porcos.

Andy Riley é escritor (cartoonista e autor). Andy Riley também desenha, não tendo, no entanto, um estilo ilustrativo surpreendente (o que também não se revela necessário, pois a ideia-base é conquistada pela simplicidade, pelo esboço, pelo cariz infantil). Andy Riley escreve essencialmente comédia. Andy Riley é o autor e ilustrador de diversos livros: “The Bumper Book of the Bunny Suicides – Fluffy Little Bunnies Who Just Don’t Want to Live Anymore” (“O livro infantil/ilustrado dos coelhinhos suicidas: coelhinhos fofinhos que apenas já não querem viver mais”), “O regresso dos coelhinhos suicidas”, “Grandes mentiras para dizer a crianças pequenas”, “Muitas mais mentiras para dizer a crianças pequenas”, “D.I.Y. Dentistry” (por aproximação: “Dentista faça-você-mesmo”), e o seu último grande hit: “Porcos egoístas”. É sobretudo sobre os coelhinhos suicidas e também um pouco sobre os porcos egoístas que se debruça este artigo.

Como se pode constatar, a maior parte das “tiras” de Andy Riley são apenas o punchline da história. A mente do leitor automaticamente empreende a conquista do set-up – a estória que antecede a imaginativa perda de vida do animal. Por vezes é difícil encontrar o coelho suicida na vinheta, restando apenas um resquício gráfico das orelhas. As orelhas pelo coelho – sinédoque gráfica desse mamífero que adivinhamos com uma postura indiferente, até divertido ou aliviado, enquanto espera pacientemente, lendo um livro acompanhado de um drink, o golpe fatal.

Dos coelhinhos bonitos, queridos e fofinhos com tendências suicidas passamos drástica e paradoxalmente para o egoísmo descarado dos feios porcos, e maus. “Selfish pig” – a dramática injúria inglesa – deve ter sido a gota-de-água para todos aqueles coelhos. Numa arrogância perversa e infantilizada, estes porcos egoístas atravessam o quotidiano com um menosprezo ignóbil pelos outros, com o focinho contorcido, saciando o seu ego com uma carência atencional rebuscada.

Os coelhinhos suicidas conquistaram milhares de fãs e a crítica de diversos media e de várias celebridades. Por exemplo, o Daily Telegraph afirma que os “sádicos de todas as idades vão absolutamente amar o livro”, Elton John assume que este “é o livro mais divertido e coelhico que alguma vez [leu]” (“coelhico” de “bunniest” – passo a tradução e o possível neologismo) e Hugh Grant ironiza (suponho) que é “um dos mais importantes livros do ano”.

Até agora, os seus livros venderam mais de um milhão e meio de cópias e foram publicados em 14 países, dando origem a todo o tipo de merchandising: calendários, posters e cartões de todos os tipos, porta-chaves, cadernos, t-shirts, pastilhas elásticas, doses industriais de cianeto com a cara de um dos coelhinhos no rótulo, pins. Em paralelo, Andy e o seu colega de trabalho desde os tempos da escola – Kevin Cecil – escrevem humor para séries de televisão britânica (onde se inclui o famosíssimo Little Britain), para filmes e para a rádio. Facto não confirmado mas de que se especula ser verdadeiro é que tenham participado no filme “Noiva Cadáver”, de Tim Burton, com (como alegam no livro dos coelhinhos) quatro piadas.

Entre os prémios que receberam salientam-se dois BAFTA (os prémios anuais da Academia Britânica para Filmes e Televisão para os melhores trabalhos em audiovisual), ganhos pela série de animação Robbie, a Rena, em 2000. Semanalmente, Andy publica uma tira de banda desenhada no The Observer Magazine, chamada “Roasted” (“tostado”) – as desventuras de dois cruelmente (auto)críticos empregados de café.

Os livros de Andy Riley dão excelentes prendas de Natal, de aniversário, de anos de casado, para a/o ex-namorada/o, para aquele/a amigo/a que agora anda com ela/e, para as mães de ambos, para uma cenoura ou para uma trufa. Enfim, uma fonte de risos e de ideias para as pessoas de que mais gostamos.

(Artigo original na obvious, aqui)